quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Carta do lixo

Abri sacos de lixo
Desatando nós
A procura desse aqui e do outro
Procurando entre os meus eus
Nós.
Sujo de quê?
Se a sujeira maior estava o tempo inteiro
Estampada nos rostos de quem me olhava com indiferença.
Morto por quê?
Se a maioria daqueles que me viam
Sequer ainda sabem o que é viver.
Errado por quê?
Se os erros maiores estão escondidos
Nos algoritmos dos seus celulares
Pervertidos, maldosos, cruéis.
Trouxe uma carta da rua para vocês.
Ela é triste e real.
Pelo menos é real.
É real?
Eu trouxe uma carta.
Ela dizia que a cidade não foi feita para nós.
A cidade não foi feita pra nós.
Caminhado na rua, enfrentando chuva e frio
Pude sentir o amor sumir no aperto de um gatilho.
Pimenta no rosto, no corpo ensanguentado.
Na mina chorando, no verso sangrento de um soldado.
É foda dizer, mas isso é a verdade.
PM que chuta mulher grávida e caça liberdade.
A bota do cão, que marca sua visita
Ao cemitério de almas vivas derretidas por um cachimbo
Insista, não fica calado mano.
Porque os covardes te matam é na surdina.
A ameaça começa com a busca pelos dados criminais.
“Vou te queimar vivo” é o terror que fazem os animais.

As cidades não são feitas pra nós
As cidades não são feitas pra nós

(Trás ele pra cima, não deixa esse cara se afogar na piscina de fumaça e lágrimas.)

As cidades não são feitas pra nós
As cidades não são feitas pra nós

(Trás ela pra cima, não deixa essa moça se afogar na piscina de fumaça e lágrimas)

O filho da puta que compra do nóia o celular suado.
Oferece 10 conto no novo k10, sorrindo pro coitado.
O meu desejo é que, para aprender, esse cara nunca precise
Ter que ter um filho nesse estado, passando por essa crise.
Tem aqueles escrotos mano, cidadãos de bem
Que se aproveitam da mina que do crack é refém
Saem de casa, deixam esposa e os pivete
Pra procurar por 10 reais o mais gostoso dos boquete
Vem falar merda, que esquerda é canalha
Mas na sua igreja até o pastor tá de metralha
Dessa gente eu tô com nojo até o pescoço
Se for pra viver dessa forma mano…
Volto pra rua pra comer osso.

Blumenau 15/01/2019
Felipe Vasques


domingo, 28 de outubro de 2018

O que será do amanhã

Qual será a resposta para o amanhã?
Nunca esteve tão incerto.
O Choque, a ripa, o cão.
As sirenes, o choro.
A porrada na cara.
O silêncio voltou.
Minha cara mudou.
A poesia enfraqueceu.
O amor enfraqueceu.
O deboche é contra o amor.
Não é contra mim ou você.
Contra a inclusão.
O medo de falar é tão grande
Que o coração respira ofegante.
Estou aguardando o som das botas
Começarem a subir as escadas
Caçando meus pensamentos.
Usando algum discurso de mentiras
Para torcer meu corpo contra minha liberdade.
Eu tenho medo de verdade.
Pois não existe pudor na tortura.
Não existe paz na violência.
Não existe amor na ordem para matar.
E os que estão ao meu lado
Pensando nas contas.
Nos bens.
No poder.
Esquecem os valores reais.
Cultuando uma caricatura,
Cheia de deboche e ódio.
Que exalta a ignorância acima de tudo.
Estou em estado de tristeza.
De profunda tristeza.
É como se meu grito guardado
A sete chaves.
Fosse acordar uma multidão enfurecida.
Tal qual zumbis,
Apontariam dedos para minhas frases.
Acusariam meu posicionamento.
Deturpariam minhas ideias.
Para reprimir a força da minha opinião.
Querem enterrar viva minha esperança.
De ver crescer um mundo sem ganância.
Sem ódio e sem preconceito.
Se preciso for me enterrariam junto
Junto à minha opinião.
E o que me deixa mais triste ainda
É o silêncio de quem está tão perto de mim.
Não é preciso os títulos de mercados de diplomas.
Nem honrarias de premios para ver.
Que gente, muita gente, voltou a morrer pelo que pensa.

(...)








segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Briga de posts

Mal sabem eles
Que suas postagens ofensivas
Objetivas
Curtas 
Carregadas de ódio
Certezas absolutas
Frases de livros e autores
Que nunca leram
São como objetos 
Pedras e pedaços de bosta
Lançam entre si suas inutilidades
Cada vez com mais força e arrogância 

Certos dias

Matei a sede vertiginosa
Com baldes suculentos de desgraças e açoites
Com pedaços de mal caratismo e vergonha
Com furtos de pedaços de vida
Estragando pedaços da cidade
Da vida
Das vidas
Vomitando dentro do carro a fumaça engasgada
Tirei o sono da noite
E o brilho do sol da manhã
Pesei minhas próprias pálpebras duma vergonha inigualável
A sujeira fétida está em mim
Nos pulmões
Nas ações
Na depressão
Na ausência
Na necessidade
Na falta de amor
Na presença do incerto
Saudei o mal
Curti a tristeza, a maldade, a indiferença
Se talvez não houvessem tantas correntes
Se o rio molhasse meus pés pela manhã
E a roda de violão em volta da fogueira
Educasse meus filhos com cultura e dança
E a roupa do corpo fosse opcional
E o acordar fosse opcional
E o viver fosse prazeroso.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Voz

Preciso de voz
E há quem me alcance um lenço
Não!
De papel não traz elegância
A podre elegância
O de papel mata
Mata?!
Preciso que me traguem
Me trazem tantos males nesse enredo
Um simples rasgar de papel
Um ranger de madeira quebrando
Lá no meio da mata
Mata?!
Preciso demais de voz
Vós
Precisamo-nos inteiros
Preciosos
Somos?!

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Prenúncio do caos

Já fui lá fora hoje, olhei  o meu mal tempo
O céu, a vida, a semana, o dia, se fecharem
Fecharem a porta na minha cara
Não quis o clichê do cigarro, jogado em cima da mesa de centro
O sol, satisfeito em iluminar, repôs a luz que já havia se esvaído.
Andar pelas ruas, ou pelo apartamento. Tédio
Acordar cedo hoje, foi como confrontar um gigante
Tem horas que não é mais possível se olhar no espelho
Enfrentar o seu próprio olhar
Reconhecer em si mesmo o fracasso que faz parte
O mundo, a vida, o sistema político e social
Recolhendo roupas de um varal,
Sentado, olhando para o tempo, o coração palpitando de cafeína
Querer e não poder
Ter os pincéis nas mãos e faltar-lhe brio na cara para pintar
Trago pimenta nos olhos e eles desaguam de vez enquando
Pareço chorar com mais assiduidade ultimamente
É como se estivesse no caminho certo agora
Só que não
Por que cesse caminho me leva justamente à descoberta
Não existe certo e errado
Que dilema
Estar como se estivesse no meio de uma pontezinha apodrecida
Cada balanço é uma dúvida sobre o final dessa vida ou história
E o cigarro ainda ali, ao lado do celular e seus Apps malditos
Malditos Apps
Comendo-me pelas beiradas assim com comeram-me tanto, as máquinas
Empoeirando os livros
Conservando os discos que arranhavam tanto
Conservando estático, tudo que se movia tão belo e natural
Estragando a imparidade de cada peça de teatro
Os caminhões do exército enfileirados no pátio
São como feras enjauladas
Prestes a sucumbir aos desejos do caos
A dúvida perpetua, sobre o que há de vir
Não se tem vendido, não se tem comprado
O transporte é para alguns poucos
Não caiu ainda a ficha, do absurdo que está por vir











sexta-feira, 25 de maio de 2018

Prá eliminar

Antes de mudar o mundo
Feche a porta do quarto
E deita aqui quentinha
Encha a boca de menos palavras
E mais riso
Faça amor comigo
E com o mundo inteiro
Sim
Faça amor com todo mundo
Com tudo mesmo
Espalhe seu gozo
Sua felicidade
Suas fantasias
No hall do prédio da vida
Na parede ensaboada
Nos semáforos
Venha nua
Experimente a pobreza
A tristeza
A desgraça
A doença
A raiva
A saudade
Elas fazem parte da vida.
Para que servem as coisas
Os vicios
Os sentimentos
Se não usa-los?
Venha torpe
Tome antes um drink
Ou a garrafa inteira
Mas não venha sã
Deixe essa lucidez inútil
Pendurada no abajur ao lado da porta
Venha louca
Pois todo o seu esforço
Enquanto pensa
Também é inútil
Por isso venha sem pensar
Jogue no chão
Junto com a calcinha molhada
Sua vergonha e seu pensamento
Espalhe-se toda na cama
Derrame seu corpo sobre mim
Escorra labios boca mãos
Deixe-se apagar da vida
Pois tudo que nela existe
É inutil